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terça-feira, julho 18, 2006

TEMOS ESPAÇOS CULTURAIS?



Temos espaços culturais. Pois é e agora?

A cultura em Goiânia anda em alta. No dia 05 de julho, dia que se comemora o Batismo Cultural de Goiânia, os vereadores, enfim conseguirem realizar a audiência pública da Cultura e com a presença do titular da pasta Kleber Branquinho Adorno.

Em junho foi anulada pela justiça goiana a 3ª Conferência Municipal de Cultura, pela ausência absoluta de divulgação, mais que uma ação da justiça, representa a reação dos artistas goianos contra o arbítrio e a favor de uma política pública para cultura que seja gregária e participativa.

No dia 11 de julho o jornal O POPULAR abriu espaço de duas páginas no Caderno O MAGAZINE para que o jornalista Rogério Borges, aparentemente levantasse a bola da discussão : ausência de políticas públicas para cultura em Goiânia e em Goiás.

Muito bem escrita, a matéria (leia na integra http://goiasnet.globo.com/cultura/cul_report.phtm?IDP=5990 )

prima por deixar nas entrelinhas a discussão que coincidentemente está explicitada na fala de Eládio Teles no caderno de opinião do jornal O POPULAR 11 /07/ 2006:

“Cultura para quem?

Ou seria melhor a pergunta: cultura para quê? Ou ainda: a quem serve a cultura em Goiás? Diante das últimas obras realizadas pelos governos da capital e do Estado, e conhecendo algumas características de nossa realidade, com um pouco de reflexão somos capazes de algumas respostas.

Eládio Garcia Sá Teles

Se não me engano, o Centro Cultural Oscar Niemeyer custou aos cofres públicos algo em torno de R$ 60 milhões. Uma estrutura imponente, construída a toque de caixa e (pasmem!) parada. Talvez pelos mesmos motivos que justificaram a terceirização do Centro de Cultura e Convenções: a ausência de mecanismos na estrutura administrativa que possibilitem a contratação de pessoal capacitado para uma gestão eficiente; a morosidade nos procedimentos de aquisição, manutenção e atualização de equipamentos, entre outros, assim como a falta de indicações orçamentárias para esta tarefa. O mesmo mal do qual padecem o Teatro Goiânia, o Cine Cultura – que oferece apenas duas sessões diárias –, os Centros Culturais Martim Cererê, Gustav Ritter e Veiga Valle, o Museu de Arte Contemporânea...

Durante oito anos nada foi feito no sentido de sanar esse mal crônico, como criar cargos, funções e organismos específicos que permitam ao Estado gerenciar com eficiência seus equipamentos para cultura, orientando sua utilização para o bem-estar da sociedade como um todo, cumprindo seu dever constitucional. São probleminhas conhecidos e nunca resolvidos. Enquanto isso a administração gastou milhões em um megaequipamento, o Centro Cultural Oscar Niemeyer, que, se vier a funcionar, atenderá muito bem às populações carentes de condomínios horizontais de luxo ou das dezenas de edifícios que surgem diariamente no entorno do Shopping Flamboyant. Ao mesmo tempo, a Prefeitura de Goiânia investiu pesado na reforma do Cine Ouro: finalmente a capital tem um teatro e um cinema administrados pelo município. Só que, na contramão das decisões da 2ª Conferência Municipal de Cultura, garantidas por lei, o prédio é alugado com pretensões de aquisição futura, ou seja, estamos reformando a casa para comprá-la em seguida. Uma estratégia utilizada pelos mais eficientes mercados imobiliários do Planeta. Por outro lado, prédios próprios como a Estação Ferroviária, totalmente reformada, o café e a biblioteca da Praça Universitária – também reformados –, convênios como o do Grande Hotel e até mesmo imóveis alugados como o Cete estão abandonados. Por coincidência projetos iniciados pela gestão anterior – que mesmo antes de entregar a administração os havia abandonado – evidenciam a mesma qualidade de planejamento das gestões aqui citadas.

Diante dessas observações, e pressupondo uma lógica, a conclusão imediata e otimista é a seguinte: faltam inteligência e sensibilidade aos gestores da Cultura na capital e no Estado, já que, justificadamente, podemos levantar suspeitas deveras. Entre elas sobre suas intenções e capacidade de planejamento e, por conseguinte, sobre a legitimidade desses ordenadores de despesas e seus assessores para propor e gerenciar projetos, quiçá programas, para a cultura. São conclusões tiradas apenas observando uma parte das ações – mas, se tomássemos outras como exemplo, as conclusões não seriam diferentes.

Eládio Garcia Sá Teles é diretor, roteirista e
produtor cinematográfico eladiocinema@gmail.com

Mas, vamos lá. O que se pode dizer do Centro Cultural Oscar Niemeyer?Para um cartão postal, talvez, seja caro demais. Mas ainda não mostrou ao que veio e se quiser mostrar, ao que tudo indica, os atores da cena cultural terão que ser chamados para a discussão. Longe de ser um pecado, a discussão é parte da caminhada para um mundo melhor e para os fazedores de cultura, significa reconhecimento, dignidade e transparência.

E nesse caso, Fernando Perilo gravando DVD na esplanada soa meio antigo no modo de gerir a coisa pública.

Ocorre que os espaços culturais, tanto quanto os centros de saúde e as escolas, exigem administradores competentes (e não apaniguados políticos) e sobretudo projetos a curto, médio e longo prazo. E tanto quanto a saúde e a educação, a cultura dispõe de orçamento próprio.

Se não há o que se dizer do C. C. O.N, certamente o mesmo não pode se dizer do Cine Ouro, vulgo Goiânia Ouro.

E ai o bicho pega, nascido sob o signo da dúvida, o Goiânia Ouro é tão inusitadamente estranho como é o Centro de Memória e Referência de Goiânia (Grande Hotel) e o CETE. Os três inexistem enquanto organismo instituído por lei ( ao que se sabe o poder público só pode fazer aquilo que está na lei), portanto sem quadro de pessoal e orçamento. E não é só isso.

Quanto efetivamente foi gasto pela SECULT para fazer renascer das cinzas o Cine Ouro? E da onde saíram esses recursos? Do FAC? É também estranho, pois aparentemente, se despesas foram pagas com recursos públicos, não aconteceu licitação para aquisição das poltronas e para o projetor como foi declarado pelo secretário como as únicas aquisições da administração pública.

E o que mais deixa margem para dúvidas, a despeito do discurso de que o espaço está destinado a produção local e regional, como explicar que na fraude da 3ª Conferência Municipal de Cultura(2005), a ordem era excluir todos os produtores e as entidades representativas? E conseguiram. Impuseram um Conselho Municipal de Cultura composto de pessoas que representam 100% os interesses da SECULT. E que nem sempre, por que não dizer, quase sempre, não representa os interesses dos artistas.

E no mesmo rastro segue a Comissão de Projetos Culturais composta em sua maioria de cargos comissionados da SECULT e como no caso da música chega a ser hilário o titular, Wilson Ribeiro, o que se intitula o homem do Íris (será que o prefeito sabe disso), qual o perfil do cidadão para escolher quais projetos de música é de interesse para a cidade? E quem indicou? As duplas sertanejas que empresaria?

Declarado o tratamento preferencial para os projetos aprovados pela lei de incentivo, afirma-se ainda que a FENIX destina-se ao uso dos artistas considerados de interesse da SECULT ou pior ainda, visa garantir a lealdade e fidelidade dos artistas e entidades ao secretário.

E esse precedente já foi aberto quando em grau de recurso o CMC aprovou um projeto que havia sido considerado proposto por “laranja” e ainda por cima, a despeito da lei, aceitaram a troca dos proponentes. E esse projeto inaugurou o Goiânia Ouro.

A cultura é processual, o que não é processual é a instalação de novos espaços sem planejamento, sem corpo técnico, sem orçamento e sem projeto. Isso nada mais é que esperteza política ou despir um santo para vestir o outro. E no caso concreto, em nome do novo, seqüestra-se o piano do Centro Livre de Artes, abandona-se o Grande Hotel a própria sorte (para prédio de particular temos didim, para prédio tombado como patrimônio cultural da cidade, temos abandono).

Ora, apostar na produção local, significará sempre, sobretudo, respeitar o produtor, estimular através de programas permanentes de apoio a produção e a profissionalização do artista local. E certamente apostar na produção local, não significa erguer micros ou macros centros culturais, mas, antes de tudo revitalizar e implementar projetos de permanência dos instituições já existentes. Tornando-os qualitativos e dignos.

Ao invés disso afirma-se que todas as letras que o Goiânia Ouro é o supra-sumo da cocada, mesmo que o aluguel seja pago com recursos da educação; que o abandono da Estação Cultura é culpa da Rede Ferroviária Federal que desgraçadamente resolveu entrar em liquidação; que o Grande Hotel não deu certo como Centro de Memória(ou de esquecimento?) por que o INSS(dono) é um crápula que não compreende a cultura, mas quem sabe, acabará em biblioteca, isso claro, se não houver despejo.

E o Palácio da Cultura? Reformado em 2003 com dinheiro japonês deixou de ser um espaço das artes plásticas para ser tornar um” boteco”.E atualmente, resume-se a expor o acervo do MAG(legalmente a sala é subordinada ao museu) e obras dos próprios funcionários. Ora, quem explica a retirada das obras do museu, que até maio de 2005 estavam em reserva técnica climatizada, direto para uma sala totalmente desqualificada para receber um acervo museológico? E bons tempos aqueles que não se usava espaços públicos em proveito próprio.

O CETE é outro espaço que foi “obrado” com recursos públicos e o prédio é de particular.

E então? Como diria uma certo poeta arreliento, e então? Quem é a bola da vez?

Ora, gente, ausência de política pública dá nisso mesmo. E audiência pública deixou isso bem claro, afinal, aqueles que produzem cultura não estavam sentados na fila dos apoiadores do secretário.

E enquanto isso, o piano do Centro Livre de Artes seqüestrado para enfeitar o Goiânia Ouro deixa de servir a comunidade. Será que seqüestro de piano é crime inafiançável?

Tem razão o Eládio , falta inteligência aos gestores públicos.

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