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domingo, janeiro 07, 2007

Vítimas do nosso próprio descaso

Novos mandatos federais e estaduais se iniciam. Em consequência, a expectativa de todos nós, cidadãs e cidadãos brasileiros ganha vigor. Por razões diversas, que os estudiosos já anunciaram, a população desenvolveu ao longo da história forte vinculação com o Estado. As próprias Ordenações Ultramarinas cuidaram de inaugurar e manter aceso o elo entre ambos. Desde então, os brasileiros se acostumaram a essa dependência ao ente estatal, que a tudo supervisiona, a todos superintende.


por Salma Saddi

Nem tão mal assim. No âmbito da preservação cultural, não fosse a intervenção do Estado, em obediência aos dispositivos que pontuam a legislação desde a Carta Magna, quase nada, talvez, restaria a esse país de mais de 500 anos de história. Se, por um lado, não padecemos das guerras que dizimaram pessoas e referenciais culturais em várias partes do mundo, por outro somos vítimas de nosso próprio descaso. Nossas pegadas no tempo já estariam reduzidas a quase nada sem a atuação do Estado, sobretudo do governo federal.

Nos últimos anos obtivemos, nas três esferas federativas, progressos com as leis de incentivo à cultura. Entretanto, vale ressaltar que tais leis impulsionam a preservação cultural, porque o poder público renuncia ao que é seu por direito. E ainda: as empresas mais participativas são as estatais. Além delas, exceto as gigantes das telecomunicações e alguns bancos, sobram poucas. Na verdade, sob o aspecto financeiro, o particular perde mais do que ganha ao incentivar a cultura. Só que a maioria das empresas não se dá conta do ganho promocional, da melhoria da imagem da organização, da responsabilidade social.

Nos últimos quatro anos, em Goiás, não há como reclamar do desempenho dos governos federal e estadual. Goiânia, por sua vez, tem mostrado progressos nesse sentido, sobretudo desde a administração anterior. Somos testemunhos disso. Mas muito há o que fazer, principalmente no que diz respeito à educação patrimonial.

Já asseverei em outro artigo, que, sem educação geral, ficam prejudicadas as ações de educação em particular. A educação patrimonial seria muito mais frutífera se todos tivessem o hábito de ler e escrever cotidianamente. Contudo, enquanto esse sonho idílico não é convertido em realidade, contentemo-nos em desenvolver atividades cada vez mais elaboradas de educação voltadas para o patrimônio. Se parte das verbas oficiais para comunicação fosse empregada para tanto, teríamos enormes progressos em prazos não muito extensos.

Em especial, destacaríamos o Projeto Cara Limpa, através do qual o Centro de Goiânia poderá revelar seu estilo art déco. Contaríamos então com poderoso efeito multiplicador, pois toda cidade tem sua história, tem sua fisionomia. A metrópole goiana recebe gente de todos os quadrantes e seu conjunto art déco é o mais preservado do País. Basta exibí-lo.

O tempo passa. O tempo voa. Mas não podemos nos conformar diante das dificuldades, principalmente as orçamentárias. Há que se apelar para a criatividade e a educação. Que os nossos representantes públicos possam, com profundidade, observar isso ao pé da letra.

O patrimônio cultural agradece.


Salma Saddi é superintendente regional do Iphan

Artigo publicado no jornal O POPULAR caderno OPINIÃO do dia 06 de janeiro de 2007.

O alerta contido nesse artigo é mais que pertinente e deveria ser ouvido pelos gestores públicos. E não somente o art déco espera para ser revelado, Goiânia representa uma diversidade de estilos, de vidas, de fazeres que deveriam ser contemplados quando são traçadas as políticas públicas para cultura.

Mas talvez, quem sabe, o maior problema seja exatamente a ausência dessa política que deixa tudo e todos ao sabor do "destino" e do momento.

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