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segunda-feira, janeiro 29, 2007

Museu tradicional dá lugar ao museu caixa registradora

Projeto francês de levar o Louvre para os Emirados explicita o desejo de explorar o poder diplomático e financeiro da arte

Maria Hirszman
Uma batalha vem sendo travada na França em torno de um projeto de criação de uma espécie de filial do Museu do Louvre em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos). O projeto da instituição, que vem sendo chamada jocosamente de “Louvre do Deserto” e que deverá ser assinado até o fim do mês, provocou vivos protestos por parte de figuras eminentes da intelectualidade francesa e de um grande número de historiadores, museólogos e gestores culturais do país.

Mais de dois mil deles já puseram seus nomes num abaixo-assinado que, pelo que tudo indica, cairá no vazio, já que o governo promete assinar o contrato até o fim de janeiro. A imprensa também entrou no debate, que vai muito além de decidir se é conveniente ou não que o museu mais célebre do mundo ganhe uma versão árabe - que inclui exploração da marca por 20 anos, concessão de obras e expertise - em troca de petrodólares ( 700 milhões, mais precisamente).

Os defensores da idéia dizem que é muita hipocrisia protestar contra a remuneração em troca de empréstimos de obra de arte, prática corrente entre os museus de todo o mundo. Além disso, existem outros projetos ambiciosos sendo desenvolvidos, como a criação de uma extensão do Beaubourg em Xangai (a ser inaugurada em 2009) ou o polêmico empréstimo de obras-chave do mesmo Louvre, por até três anos, para o High Museum de Atlanta.

Empréstimo esse que desguarneceu as paredes de sua mostra permanente, mas garantiu-lhe verba extra de US$ 6,4 milhões para reformas. Os inimigos dizem que uma coisa é receber algo em troca de um simples empréstimo, outro é “vender sua alma” àqueles que podem pagar, transformando uma parceria cultural em um contrato comercial. Alegam que há sempre um limite a ser respeitado. Mas qual seria esse limite? É possível, hoje, definir quais seriam as regras éticas a serem seguidas? A primeira tendência é procurar as motivações políticas para as posições de uns e outros.

Afinal, o projeto é sustentado por Jacques Chirac, que explicita o desejo de explorar o poder diplomático da arte e da cultura. E porque não o poder econômico também.Mas, se essa análise clareia as posições e intenções dos campos em combate, ela não é suficiente para explicar o que está em jogo.

Tradicionalmente a França sempre recorreu à cultura como forma de legitimação, interna e externa, do Estado e essas mudanças - que levam a uma aproximação perigosa em relação a um sistema mercantil de gestão de museu - ameaçam esse sistema. Defensores e detratores do projeto parecem pouco interessados na ponta final, o público. Curiosamente, nenhum dos artigos da imprensa francesa ou americana sequer menciona os interesses e opiniões do pessoal de Abu Dhabi. A população pequena (de cerca de 700 mil habitantes), as restrições de caráter cultural e religioso (como a possível censura em relação a obras ligadas à nudez e a religião católica) e elevado status econômico dos habitantes dos Emirados tornam o projeto ainda menos simpático. A situação se complica ainda mais com o fato de se tratar de um projeto coordenado por Thomas Krens, o mentor da franquia Guggenheim.

Desde o início da década de 90 o museu americano vem desenvolvendo uma política agressiva de expansão internacional, capitalizando seu acervo e banalizando sua marca. Ao entrar nesse jogo, o Louvre pode até ter vantagens incontestáveis. Afinal, trata-se do mais famoso museu do mundo, com um acervo capaz de alimentar sozinho e simultaneamente centenas de exposições ao redor do mundo.Mas a auto-estima e os princípios dos franceses correm sérios riscos de sairem arranhados.

Não à toa Krens trata com delicadeza, em entrevista publicada semana passada pelo Le Monde, a resistência dos franceses. Mas ao mesmo avisa que tem outros interessados caso o projeto não dê certo. Afinal, a operação Abu Dhabi inclui não apenas um Louvre (com 24 mil m2), mas um mega-Guggenheim (com 32 mil m2 e projeto de Frank O. Gehry, autor também da filial de Bilbao), outros três museus e um complexo de espetáculos. Há candidatos russos, italianos, espanhóis.

O hábil negociador deixa claro que não faltam no mundo museus com belos acervos, dispostos a fazer bons negócios.Aceitar as regras impostas pelo adversário - nesse caso, os americanos e seu modelo de gestão privado - implica no médio prazo em ceder à lógica de mercado, abandonar a idéia de que a cultura é um bem a ser gerido, protegido e financiado pelo Estado. Fala-se em riscos até maiores, com fortes boatos circulando sobre o fato de o governo estar pensando em romper uma regra de ouro, que estabelece que uma obra quando entra num museu, pelo menos francês, perde imediatamente seu valor de troca e adquire um valor simbólico inquestionável e incalculável.

A história - até agora desmentida - sobre uma possível venda desse “excedente” (consta que apenas 5% das obras reunidas nos museus franceses fica em exposição permanente) causou calafrios em muita gente.Os pragmáticos alegam que se está fazendo uma tempestade em copo d’água e que o dinheiro dos Emirados (assim como o dos quadros cedidos para Atlanta) será totalmente reinvestido no museu. Mas a que preço? O primeiro deles já está sendo cobrado.

O governo francês já anunciou que o Louvre em Abu Dhabi será bem menos “louvriano” do que se pensa à primeira vista. Em primeiro lugar porque será gerido não pelo staff do museu à beira do Sena, mas por uma Agência Internacional de Museus Franceses a ser criada. As mostras temporárias que o museu se compromete a organizar para Abu Dhabi não apenas incluem obras de seu acervo, mas de outras instituições congêneres como o Museu d’Orsay e o Beaubourg.

Em suma: a instituição do Estado cede o nome (por um prazo de 20 anos), os técnicos e a maioria das obras a serem mostradas na filial. Mas vai perdendo controle sobre seu acervo e sua política internacional.Convém lembrar que o Brasil quase teve o seu Guggenheim, operação desastrosa que foi barrada pela justiça.

Mesmo assim, se felizmente conseguimos interromper esse projeto - que traria mais vantagens ao museu americano do que ao público brasileiro -, estamos há anos inseridos nesse sistema crescente de compra de pacotes de exposições e pagamento de valores elevados para ter o privilégio de ver, mesmo que por alguns meses, alguns destaques da cultura mundial. As megaexposições realizadas no Brasil desde a década de 90, cuja grandiloqüência levaram algumas instituições a uma situação financeira nada confortável - deixou bastante claro que a imagem romântica do museu, mesmo que criticável, por suas origens colonialistas, de saques e pilhagens, ficou para trás.

O museu-cofre, cuja função era amealhar (mesmo que à custa de outras culturas) belos objetos e obras de arte, deu lugar ao museu caixa registradora, que precisa mercadejar, no varejo ou no atacado, a riqueza que têm sob sua guarda.
Fonte: Estadão

O blog só voltaria a ativa em fevereiro, mas a noticia é muito interessante e abre um leque curioso de discussões. E será que o Louvre não quer abrir uma filial em Goiânia? O que acham? Comentem!

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